terça-feira, maio 17, 2005

Procura-se ex-coroné

Procura-se ex-coroné...

Quem me conhece sabe que fui vítima de uma grande injustiça. Mais uma vez as forças opositoras se unem contra mim. Organizei aquele comício com as melhores intenções, contratei os mais talentosos cantores da região, reuni a banda oficial da cidade para os mais velhos enquanto algodão-doce e pipoca eram distribuídos para as crianças. Parecia festa junina em pleno mês de setembro. Só se fosse festa para São Raposo.
Passei horas refletindo em meu gabinete sobre as injustiças que aqui ocorreram. Sinto-me ofendido e humilhado. Por isso que volto a afirmar, o povo não sabe votar. As pessoas se esqueceram do bem que fiz a esta cidade.
Como pôde Dona Maria não se lembrar de quando consegui pessoalmente uma vaga para o mais novo de seus três filhos na escola mais perto de sua casa. Andando rápido, a criança pode chegar à escola em menos de uma hora, sem falar no benefício à saúde, afinal, caminhadas diárias ajudam crianças a crescerem mais rápido. Quanto aos outros dois filhos de Dona Maria, eles serão muito úteis em minha lavoura, pagarei a eles o preço justo por seu trabalho e poderão voltar à escola ano que vem. Essas famílias pobres dessa cidade não sabem gastar, não dão valor ao dinheiro.
Nunca se deu emprego a tantos homens como durante a minha gestão. Mandei empregar todos os homens desocupados na construção da praça em frente à prefeitura, um marco em nossa cidade. Um cartão-postal com o retrato em pedra de meu queridíssimo pai, que durante 12 anos ininterruptos conduziu nossa cidade ao desenvolvimento. Se São José dos Ventos, nossa cidade vizinha e rival, pode ter uma maravilha dessas, por que não poderíamos?
Orgulho-me de incluir esta pequena cidade rural no processo mundial de globalização. Fiz questão de trazer uma filial de uma rede de supermercados para cá, pois nossos cidadãos merecem o melhor. Alguns pequenos comerciantes que exploravam meu povo foram engolidos pelo futuro e viraram-se contra mim. Nada posso fazer. Meu compromisso é com o bem maior desta cidade: o povo.
Concluindo, pois ainda não me convenci de que fui destituído, não sei que mente corrupta iludiu os eleitores que voltaram-se contra mim e minha família. Idéias deturpadas sobre meu governo corriam aos quatro ventos. Ouvi dizer que “governo bom tem que ser transparente e responsável”. Ora, governo bom não pode ser transparente. Política é um jogo sujo, cheio de interesseiros e manobras que somente um prefeito competente e honesto como eu sabe tirar proveito do poder e fazer o bem à população. É melhor que o povo fique à parte dessas politicagens, de nada adiantaria o povo saber o quanto gasto com saúde.
Tive que interromper as reformas de minha casa quando soube os resultados das pesquisas eleitorais que solicitei. Tal tristeza me trouxe uma depressão sem precedentes, nada mais me alegrava. Reuni todas as minhas ultimas forças e realizei um super comício com os últimos centavos que a prefeitura tinha em caixa. Fui chamado de ladrão, incompetente, safado. Um golpe mortal e doloroso em meu coração.
Sei respeitar a democracia e as eleições ocorreram normalmente. O povo, enganado, não me reelegeu. Perdi sim, mas sigo orgulhoso. Um dia, todos verão o quanto me esforcei, tudo que realizei por aqui e sentirão a minha falta, mas não me encontrarão. Estou de mudança. São José dos Ventos que me aguarde! O futuro está a caminho!